sábado, 3 de abril de 2010

Recital de poesias - ÁLVARES DE AZEVEDO



Seja bem-vindo(a) ao blog de Língua Portuguesa do Chicão para as turmas de segundo ano. Os poemas para o recital estão disponíveis logo abaixo. Cada texto recebeu um número, que é o mesmo que os estudantes recebem na lista de chamada da escola. Então, procure o seu número e lá estará o poema que você irá declamar.

Lira dos vinte anos

São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm

a doçura dos seus cânticos de amor.

É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem

viço.

Cantos espontâneos do coração, vibrações doridas da lira interna que agitava um sonho, notas

que o vento levou - como isso dou a lume essas harmonias.

São as páginas despedaçadas de um livro não lido...

E agora que despi a minha musa saudosa dos véus do mistério do meu amor e da minha solidão,

agora que ela vai seminua e tímida, por entre vós, derramar em vossas almas os últimos

perfumes de seu coração, ó meus amigos, recebei-a no peito e amai-a como o consolo, que foi,

de uma alma esperançosa, que depunha fé na poesia e no amor - esses dois raios luminosos do

coração de Deus.

Álvares de Azevedo

Os poemas abaixo são trechos de uma das obras mais importantes desse poeta romântico, a "Lira dos vinte anos".

Nº 1

À MINHA MÃE

Se a terra é adorada, a mãe não é mais

Digna de veneração.

Como as flores de uma árvore silvestre

Se esfolham sobre a leiva que deu vida

A seus ramos sem fruto,

Ó minha doce mãe, sobre teu seio

Deixa que dessa pálida coroa

Das minhas fantasias

Eu desfolhe também, frias, sem cheiro,

Flores da minha vida, murchas flores

Que só orvalha o pranto!

Nº 2

PRIMEIRA PARTE

NO MAR

Era de noite: - dormias,

Do sonho nas melodias,

Ao fresco da viração,

Embalada na falua,

Ao frio clarão da lua,

Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez

Da langue face na tez!

Como teus seios revoltos

Te palpitavam sonhando!

Como eu cismava beijando

Teus negros cabelos soltos!

Nº 3

Sonhavas? - eu não dormia;

A minh'alma se embebia

Em tua alma pensativa!

E tremias, bela amante,

A meus beijos, semelhante

Às folhas da sensitivas!

E que noite! que luar!

E que ardentias no mar!

E que perfumes no vento!

Que vida que se bebia

Na noite que parecia

Suspirar de sentimento!

Nº 4

Minha rola, ó minha flor,

Ó madressilva de amor,

Como eras saudosa então!

Como pálida sorrias

E no meu peito dormias

Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!

Como a brisa a soluçar

Se desmaiava de amor!

Como toda evaporava

Perfumes que respirava

Nas laranjeiras em flor!

Nº 5

Suspiravas? que suspiro!

Ai que ainda me deliro

Entrevendo a imagem tua

Ao fresco da viração,

Aos ais do meu coração,

Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,

Dormia a onda na praia!

Tua alma de sonhos cheia

Era tão pura, dormente,

Como a vaga transparente

Sobre seu leito de areia!